O Futuro do Futsal: o plano da França e o desafio do Brasil

O futsal é um dos esportes mais populares do Brasil, reconhecido mundialmente pela qualidade técnica dos atletas e pelos inúmeros títulos conquistados ao longo das últimas décadas. Entretanto, enquanto o país ainda debate caminhos para fortalecer a modalidade de forma estruturada, a França tem dado passos firmes em direção a um projeto ambicioso de desenvolvimento. O plano da Federação Francesa de Futebol (FFF), anunciado em 2023, é um exemplo de como planejamento, investimento e visão estratégica podem transformar a realidade de um esporte.

A estratégia francesa

Em agosto de 2023, a FFF apresentou um novo plano para o futsal que abrange desde a base até o alto rendimento. A meta é ousada: alcançar, no futsal, o mesmo patamar de sucesso que as seleções de futebol de 11 da França já conquistaram no cenário internacional. Para isso, foi destinado um investimento de 18,5 milhões de euros exclusivamente para o desenvolvimento da modalidade, garantindo que cada distrito francês tenha o seu próprio programa de futsal.

Além da ampliação da base, a federação criou um cargo específico de consultor técnico nacional, incluiu a categoria Sub-17 em seu calendário de seleções e reforçou o apoio ao futsal feminino. Trata-se de uma visão ampla, que entende o esporte não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de inclusão, formação e projeção internacional.

Massificação e cultura esportiva

O futsal na França já é um fenômeno escolar. Estima-se que cerca de 200 mil meninas e meninos pratiquem a modalidade regularmente, com um crescimento de 10% ao ano no número de praticantes registrados. Esse dado reflete o papel da escola como grande difusora do esporte, aproximando crianças e jovens de diferentes realidades sociais.

O impacto dessa massificação é evidente. O amistoso entre França e Argentina, realizado antes da Copa do Mundo de Futsal de 2024, precisou ser transferido para a CO’Met Arena, com capacidade para 10 mil pessoas, tamanha foi a procura por ingressos. O futsal, cada vez mais, ganha espaço no gosto popular francês, criando condições para consolidar uma cultura esportiva que vai além do futebol de campo.

Do talento à excelência

Transformar quantidade em qualidade é o maior desafio de qualquer processo de massificação esportiva. A França parece ter compreendido isso desde cedo. Em 2018, foi inaugurado em Lyon o Pôle France, centro de excelência dedicado ao futsal. Ali, cerca de 20 jovens talentos treinam em um ambiente de alto rendimento que combina formação esportiva e acadêmica.

Os resultados não demoraram a aparecer. Grande parte da equipe que disputou e se destacou no Sub-19 Futsal EURO de 2023 e na Copa do Mundo de Futsal de 2024 passou pelo centro de Lyon. O projeto obteve tanto sucesso que a FFF já planeja abrir um segundo centro até 2025, ampliando a capacidade de revelar atletas capazes de competir em alto nível.

Inclusão feminina

Outro ponto de destaque do plano francês é o investimento no futsal feminino. Em 2022, a federação criou a seleção Sub-23 e, no ano seguinte, anunciou oficialmente a equipe principal. Em sua estreia, a seleção feminina já demonstrou força ao vencer a Ucrânia, vice-campeã europeia, nas eliminatórias para a Copa do Mundo de Futsal Feminino da FIFA 2025. Essa decisão estratégica coloca a França entre os países que reconhecem a importância da inclusão feminina não como complemento, mas como parte central de um projeto esportivo.

Resultados que falam por si

Na Copa do Mundo de Futsal da FIFA 2024, a seleção francesa fez história ao chegar às semifinais, perdendo por apenas 3 a 2 para a Argentina, que mais tarde se tornaria finalista. Para um país com pouca tradição na modalidade, alcançar esse nível em tão pouco tempo é um indicativo de que o investimento está no caminho certo.

Ainda que a França tenha perdido a disputa para sediar a UEFA Futsal EURO 2026, o simples fato de ter apresentado sua candidatura já mostra a dimensão das suas ambições. O país, que há pouco mais de uma década via o futsal apenas como atividade complementar, hoje o enxerga como oportunidade de projeção esportiva global.

Lições para o Brasil

Diante desse cenário, surge a inevitável comparação: o que o Brasil pode aprender com a França? Afinal, somos reconhecidos como berço do futsal, mas será que estamos cuidando bem do nosso patrimônio esportivo?

O primeiro ponto é a organização estrutural. Enquanto a França estabeleceu um plano nacional, com metas, investimentos e acompanhamento, o Brasil ainda depende de iniciativas isoladas de clubes, escolas e projetos sociais. A massificação existe de forma natural, mas não é coordenada, o que faz com que muitos talentos se percam no caminho.

O segundo ponto é o investimento direcionado. Embora sejamos potência mundial, não existe no Brasil um orçamento específico para o futsal dentro das principais federações e confederações. Essa ausência de recursos destinados compromete o planejamento a longo prazo.

A terceira lição é o futsal feminino. Apesar do crescimento e da popularidade, o Brasil ainda oferece poucas competições estruturadas para meninas, dificultando a criação de uma base sólida. A França, mesmo sem tradição, avançou rapidamente porque entendeu a urgência dessa inclusão.

Por fim, a experiência do Pôle France mostra a importância de centros de excelência que unam esporte e educação. No Brasil, ainda são raros os projetos que oferecem formação acadêmica junto com a esportiva, deixando muitos jovens vulneráveis caso não consigam seguir carreira profissional.

O papel dos treinadores

Dentro desse contexto, os treinadores brasileiros desempenham papel crucial. Mais do que buscar vitórias, é fundamental compreender que cada treino é também um espaço de formação cidadã. Adotar metodologias inclusivas, valorizar a ludicidade na iniciação e estimular o futsal feminino são ações que fortalecem a modalidade de forma sustentável. Além disso, a união entre treinadores, o compartilhamento de experiências e a busca por formação continuada podem compensar parte das ausências estruturais.

Conclusão

O futsal brasileiro é reconhecido mundialmente por sua história e conquistas, mas não pode se apoiar apenas na tradição. O exemplo francês mostra que, com investimento, planejamento e visão de futuro, é possível transformar um cenário em pouco tempo.

Se a França sonha em igualar seus feitos do futebol de 11 no futsal, o Brasil precisa sonhar em manter-se na vanguarda. Para isso, massificar com qualidade, investir em centros de excelência, incluir as mulheres e organizar um plano nacional são passos indispensáveis.

O futuro do futsal está em disputa. E a pergunta que fica é: o Brasil vai apenas assistir ao crescimento de outros países ou vai liderar, mais uma vez, esse movimento global?

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