Nos últimos dias, o esporte de base em São Paulo foi sacudido por uma decisão polêmica, mas necessária: a Federação Paulista de Futebol determinou que algumas rodadas do Paulistão sub-11 e sub-12 fossem disputadas com portões fechados. A medida, de caráter educativo, foi adotada após o crescimento de episódios de violência e mau comportamento nas arquibancadas.
Brigas, arremesso de objetos, ofensas discriminatórias e até casos de torcedores armados deixaram de ser exceções e se tornaram uma preocupante rotina. Só em 2025, até o mês de agosto, já haviam sido registradas 46 ocorrências de indisciplina de torcedores nessas categorias, número superior ao total de todo o ano anterior.
Em vez de serem espaços de incentivo e acolhimento, os jogos de futsal e futebol de base têm se tornado palcos de intolerância, vaidade e descontrole. E nesse cenário, quem mais sofre são justamente os protagonistas: as crianças.
Quando a arquibancada vira campo de batalha
Os relatos são preocupantes e reveladores. Um atleta de apenas 11 anos deixou a quadra chorando após ouvir de um adulto da torcida adversária insultos como “gordo” e “x-bacon”. Em outro caso, um torcedor invadiu o espaço visitante portando uma arma de fogo. Em mais de uma ocasião, torcedores gritaram ofensas homofóbicas contra crianças que se preparavam para cobrar um pênalti.
Essas cenas, além de violentas, são profundamente contraditórias. O esporte infantil deveria ser espaço de aprendizado, convivência e formação, mas está sendo contaminado pelo mau exemplo dos adultos. A arquibancada, que deveria ser local de alegria, incentivo e apoio, acaba se transformando em uma extensão de rivalidades tóxicas, onde a vitória é vista como obsessão e a derrota como vergonha.
O resultado disso é devastador. Crianças saem machucadas emocionalmente, com autoestima abalada e muitas vezes desmotivadas a seguir no esporte. A experiência que deveria ensinar valores acaba gerando traumas e memórias negativas. Em alguns casos, o impacto é tão forte que provoca o abandono precoce do esporte.
O futsal como ferramenta de formação humana
É importante reforçar que o problema não está no futsal em si. Pelo contrário: o futsal é uma das modalidades mais ricas em potencial educativo. Por sua dinâmica rápida e coletiva, ele oferece inúmeras oportunidades de desenvolvimento social e pessoal.
Entre os principais valores que o futsal pode ensinar estão:
- Trabalho em equipe: cada vitória e cada derrota são coletivas, reforçando a importância da cooperação.
- Respeito ao outro: aprender a lidar com adversários e árbitros de forma ética e respeitosa.
- Gestão das emoções: em um jogo intenso, as crianças aprendem a controlar ansiedade, frustrações e celebrações.
- Inclusão e diversidade: o futsal acolhe diferentes biotipos e estilos de jogo, promovendo um ambiente de aceitação.
- Disciplina e responsabilidade: seguir regras, respeitar horários e assumir compromissos.
O futsal é, portanto, uma escola de vida. Mas para que cumpra esse papel, é fundamental que o ambiente em torno da quadra esteja alinhado com os mesmos princípios. Se as arquibancadas transmitem ódio, intolerância e pressão, esse processo formativo é sabotado.
Por que os adultos se comportam assim?
Entender as causas desse fenômeno é essencial para propor soluções. Muitos pais projetam nos filhos sonhos frustrados, tratando cada jogo como se fosse final de campeonato profissional. Outros confundem paixão pelo clube com agressividade, levando para o ambiente infantil uma cultura de arquibancada adulta, marcada por rivalidade e violência.
Além disso, há um fator social importante: a ideia de que o esporte de base é um caminho rápido para sucesso e ascensão financeira. Essa visão transforma o desenvolvimento da criança em um investimento de risco, no qual cada erro é visto como ameaça ao “futuro promissor”. Nesse contexto, a pressão aumenta, a paciência diminui e a arquibancada se torna palco de comportamentos abusivos.
Caminhos para prevenir a violência no esporte de base
Fechar os portões pode ser um alerta, mas está longe de ser a solução definitiva. É preciso criar uma cultura de respeito e educação esportiva que seja constante e abrangente. Algumas ações são fundamentais:
- Educação parental obrigatória
Clubes e federações devem promover encontros, palestras e rodas de conversa para orientar familiares sobre seu papel no processo formativo. Os pais precisam compreender que não são protagonistas do jogo. - Regras claras de conduta
Estabelecer termos de responsabilidade para familiares e torcedores, com punições em caso de descumprimento, como afastamento temporário das arquibancadas. - Campanhas permanentes
Ações educativas precisam ser contínuas, não apenas emergenciais. Cartazes, vídeos e falas em jogos podem reforçar a importância do respeito. - Arbitragem com caráter educativo
O árbitro pode ser mais do que um aplicador de regras: pode atuar como mediador pedagógico, promovendo diálogo e valorizando boas práticas. - Espaços de mediação de conflitos
Criar instâncias onde pais, atletas e dirigentes possam conversar e resolver desentendimentos antes que eles explodam nas arquibancadas. - Protagonismo das crianças
Dar voz aos atletas para expressarem o que sentem e desejam. Campanhas com depoimentos dos próprios jovens podem ser poderosas. - Apoio psicológico
Ter profissionais de psicologia no acompanhamento esportivo ajuda a identificar impactos emocionais e a fortalecer a autoestima dos atletas.
Conclusão: devolver o jogo às crianças
O futebol é, sem dúvida, um dos esportes mais potentes para formar cidadãos críticos, resilientes e solidários. Mas esse potencial só se realiza quando o ambiente ao redor da quadra também reflete os valores que o esporte ensina.
A decisão de fechar os portões pode servir como um choque de realidade: se os adultos não aprenderem a se comportar, perderão o privilégio de assistir seus filhos jogarem. É duro, mas talvez necessário.
No entanto, a verdadeira mudança virá apenas quando pais, técnicos, clubes e federações assumirem juntos a responsabilidade de proteger o esporte como espaço educativo. O problema não é o futebol. O problema é o adultocentrismo que invade as arquibancadas e rouba das crianças o direito de viver o jogo como ele deve ser vivido: com respeito, alegria e aprendizado.
No fim das contas, fica uma mensagem simples, mas poderosa:
o esporte é das crianças. Nosso papel como adultos é proteger esse espaço — e nunca roubar dele a alegria de jogar.